Checklist para avaliar a qualidade na iluminação pública

Uma compra bem documentada permite conferir se a luminária entregue corresponde ao que foi especificado. Antes de comparar preços, reúna o projeto, a identificação do modelo e as evidências de desempenho. Isso ajuda a evitar decisões baseadas apenas em potência, prazo de garantia ou um número de catálogo.
Este checklist organiza a conferência para gestores, engenheiros e técnicos. Requisitos regulamentares, critérios do projeto e recomendações de compra têm funções diferentes e devem ficar identificados.
1. Planejamento e projeto luminotécnico
- Projeto da via: solicite projeto conforme a ABNT NBR 5101, com classificação da via e critérios de avaliação identificados. A declaração de conformidade de uma luminária não comprova o atendimento do projeto inteiro.
- Simulação verificável: confira arquivo fotométrico do modelo, altura e espaçamento dos postes, geometria da via, inclinação, disposição das luminárias e fator de manutenção. As premissas precisam representar a instalação prevista.
- Telegestão: quando necessária, especifique compatibilidade entre luminária, interface de controle e sistema de gestão. Confirme as funções e a operação nos níveis de dimerização previstos.
2. Especificações técnicas da luminária
- Eficácia luminosa: compare fluxo luminoso e potência da luminária completa, nas condições declaradas no relatório de ensaio utilizado na certificação. Não encerre a comparação ao atingir 170 lm/W: eficácias maiores podem representar economias relevantes, desde que preservados os níveis e a distribuição de iluminação exigidos pelo projeto. Avalie o resultado óptico, elétrico e térmico do conjunto e confira os critérios vigentes do Procel quando aplicáveis à contratação.
- Vida útil declarada: para avaliar uma declaração de 108.000 horas, confira o critério de manutenção do fluxo. Como recomendação de comparação, dê preferência a declarações em L80, que corresponde à manutenção de pelo menos 80% do fluxo luminoso inicial no período declarado, com ensaios LM-80 e projeção TM-21 que sustentem o prazo nas condições e nos limites aplicáveis. Avalie separadamente a vida útil do driver: confronte a temperatura medida no ponto tc, nas condições registradas no relatório de ensaio, com os dados de vida útil em função da temperatura da documentação técnica do driver. A temperatura tc, isoladamente, não mede a vida útil do driver. Confira os requisitos para qualificação do controlador no Anexo II, Anexo D, seção 2, da Portaria Inmetro nº 62/2022.
- Proteção: confira os graus IP e IK nos relatórios do modelo, observando os requisitos da Portaria Inmetro nº 62/2022 e a configuração dos compartimentos. IP se refere à proteção contra ingresso; IK, a impactos mecânicos. Esses códigos não comprovam resistência a toda condição ambiental ou ação de vandalismo.
- Gestão térmica: peça evidência da temperatura na configuração prevista. Material, aletas e aberturas devem ser avaliados no projeto completo; sua aparência não comprova dissipação adequada.
- Componente LED: confira o código do componente e sua documentação. Veja a explicação sobre escolha do LED.
3. Conformidade regulamentar e documentação
- Inmetro: a certificação é compulsória para luminárias de iluminação pública viária abrangidas pela Portaria nº 62/2022. Confira certificação e registro aplicáveis, situação e correspondência entre documentos, marca, família, modelo e configuração ofertada. A presença de um logotipo no catálogo não substitui a verificação.
- Procel: o selo não é requisito para certificação e registro no Inmetro, porém adotá-lo como referência de compra é uma boa prática de mercado. Use seus critérios como referência objetiva para comparar a eficiência e os requisitos técnicos das luminárias.
- Ensaios laboratoriais: confira método, laboratório, escopo de acreditação quando exigido, data, identificação da amostra e resultados. O relatório deve corresponder à configuração avaliada; não basta apresentar um documento de outro produto.
- Garantia: para luminárias abrangidas, o item 5.2(j) do Anexo I da Portaria nº 62/2022 estabelece garantia mínima de 60 meses, a partir da data da nota de venda ao consumidor. Confira o termo, as condições e o atendimento. Na comparação de propostas, considere prazos superiores ao mínimo e confira quais evidências de engenharia e confiabilidade, junto às condições de atendimento, sustentam a oferta.
- Ficha técnica: reúna potência, fluxo luminoso, eficácia, temperatura de cor, IRC, fator de potência, distribuição fotométrica, limites de operação e instruções de instalação pertinentes ao modelo.
- Amostras: preveja no planejamento da contratação a avaliação de amostras, justificando sua necessidade e definindo no edital critérios e condições de apresentação e aceitação. Confira se correspondem ao modelo, à configuração e às características exigidas para o fornecimento. Registre identificação e resultados de avaliação para comparar com os lotes recebidos.
4. Sustentabilidade e consumo
- Economia calculada: compare a potência total do sistema atual e da proposta, horas de funcionamento e eventual dimerização, preservando os requisitos de iluminação. Não prometa um percentual fixo de economia sem essa base.
- Materiais e destinação: solicite declaração de materiais, orientações de manutenção e destinação adequada. Uma declaração RoHS deve identificar o produto e o escopo aplicável.
5. Instalação e manutenção
- Fixação: confira diâmetro, geometria e condições dos braços existentes e os limites de montagem documentados. Uma faixa de encaixe não atende necessariamente a todo o parque. Ao atender parques com braços de diferentes dimensões, recomenda-se avaliar luminárias com faixa de fixação ampla e comprovadamente compatível com as medidas levantadas, para evitar o uso de adaptadores.
- Inclinação: use o ângulo definido no projeto e permitido pelo equipamento. A regulagem permite adequar a instalação ao projeto luminotécnico e, quando corretamente definida, pode contribuir para reduzir luz direcionada a áreas indesejadas. Não substitui posicionamento e fixação corretos.
- Surtos e instalação elétrica: dimensione as proteções com base no projeto, nas características da rede e nos requisitos aplicáveis. Não trate o DPS como proteção universal: tensão e corrente declaradas precisam estar associadas à função do dispositivo e às condições de ensaio. Confira aterramento e conexões. Verifique a coordenação do DPS com o driver, os demais componentes da luminária e as proteções da instalação para que o conjunto atenda aos níveis de proteção previstos.
6. Inspeção e recebimento
- Conferência dos lotes: compare identificação, configuração, documentação e resultados com a especificação e os critérios de aceitação definidos na contratação. Planeje inspeções e ensaios de amostragem pertinentes.
- Contraprova: quando prevista no plano de recebimento, preserve amostras identificadas e registre lote, data, condição e responsável pela guarda.
- Rastreabilidade: mantenha os documentos vinculados aos produtos recebidos e registre eventuais divergências antes do aceite.
Conclusão
Qualidade na iluminação pública depende da relação entre projeto, produto documentado, instalação e manutenção. O checklist ajuda a organizar a decisão; não substitui a avaliação do responsável técnico nem garante resultado por si só.
Conheça as luminárias públicas da Demape e apresente os dados da aplicação para discutir o modelo e a documentação pertinentes ao projeto.
Diego Pelloso
Engenheiro Escola Politécnica USP | MBA INSEAD França | Conselho IMD
